domingo, 30 de agosto de 2009

Sangue, culpa e água

Afundo na água, sinto um peso me puxando para baixo, acho que é do corpo a principio, segundos depois percebo que o que me pesa tanto é o coração, cansado, machucado, obscuro.
Há também algo que me puxa para cima, talvez seja a leveza de uma alma que, contra todo o resto, precisa e quer continuar.
A alma aprendeu a estancar seu sangue, a cuidar das cicatrizes. O coração ainda sangra, marcas pelo corpo, cicatrizes, hematomas. Por mais que as marcas da vida sejam belas, contem histórias perdidas na noite, tento disfarçar as marcas como posso.
Mas como disfarçar essas cicatrizes, vindas de cortes tão profundos, de feridas tão doloridas?
O conflito entre meu coração e minha alma, um me puxando para baixo, outra para cima, me deixa ainda mais cansada. Tira meu fôlego literalmente, minha pele formiga.
Meu estômago, vazio, reclama. Minha boca se recusa a cooperar, minha garganta se fecha e, o vômito me diz que é melhor nem tentar.
O ar que se infiltra em meu pulmão não traz a mesma vida, vem carregado do peso da culpa, cheio de acusações, dedos apontados. O juiz puxa as gargalhadas do júri, não tenho advogado, não tenho testemunhas... no banco de réu assisto a cena imaginária sem falar nada. A porta se abre, a primeira testemunha da acusação. Não, não pode ser. Até mesmo você! Ela se senta no banco de testemunhas. Uma lágrima escorre do meu rosto, mas o rosto dela é impassível, duro, seus olhos me queimam e eu percebo, que não importa o veredicto, minha pena já começou. O juiz faz a primeira pergunta “Culpada?”. Ela me olha com rancor e ódio e, quando abre a boca para responder a voz é tão familiar e tão diferente, “Culpada!”.
A voz que saiu daquela boca é a minha voz, a mulher que me acusa sou eu mesma. O mesmo rosto, as mesmas roupas, a mesma pele pálida...
Afasto a cena do julgamento, me concentro no meu corpo que flutua na água, sem saber se vai para baixo ou para cima, sem saber o que fazer mais uma vez.
Minhas forças me deixam pouco a pouco, a cada minuto a respiração é mais complicada, sinto o coração batendo tão forte que a água parece vibrar a cada batida.


*Texto meio antigo que achei perdido nas minhas pastas. Alguns trechos são frutos de uma ligação...err... eufórica durante a madrugada dele.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Um dia

Na próxima manhã abra os olhos e encare o espelho. Permita-se enxergar além da pele que encobre a essência. Penetre no seu próprio âmago e, marque um encontro com a única pessoa que você tem que conviver para todo o sempre.
Enxergue-se sem meias verdades, sem vergonhas, sem hipocrisia. Veja toda a escuridão e imundice que infestam sua alma, todo ódio e inveja que sente. Permita-se isso sem juízos, sem desculpas ou justificativas. Não torça o nariz para quem você, olhe, perceba, aceite e só então, decida o que quer mudar.
Nesse mesmo dia saia de casa, desligue o computador, a tv, feche todos os livros. Desligue o celular, o mp3. Esqueça tudo e todos e encare seus olhos no fundo de um riacho ou lago. Mergulhe em você mesmo, só não se afogue. Beba da sua alma e permita-se sentir com vontade tudo que carrega no coração.
Olhe para toda luz que você carrega, todo o amor e admiração. Também não se julgue nisso, só se observe. Principalmente não julgue o outro por não corresponder, ou não reconhecer. Apenas perceba todo os sentimentos maravilhosos que carrega em seu peito. Toda bondade e paz que você encontra dentro de si.
Quando a noite cair volte para casa, sente-se na varanda e olhe para o céu. Encare as estrelas e toda imensidão do Universo, converse com a Lua e sorria para o mundo. Observe como você é pequeno diante de tudo e, entenda que você nunca vai curar tudo e todos. Perceba também como nada é igual, infinitos corpos únicos, cada um com seu valor, cada um com sua parcela para ajudar nessa cura gigantesca. Não fique parado, a melhor maneira de ajudar é sendo melhor que ontem.
Lembre-se que a vida é maravilhosa e cheia de coisas e seres únicos e, que é uma só. Pelo menos nesse corpo. Viva. Sinta com intensidade tudo que passar pelo seu coração: amor, ódio, paixão... mas não se demore muito em sentimento nenhum, pois o ódio corrói e o amor vicia.
Sorria, chore... compartilhe tudo isso.
Quando deitar para dormir feche os olhos, sorrindo e, durma absorvendo o que aprendeu, olhando para dentro e aproveitando aquele encontro que marcou durante a manhã.

PS: Ficou bem mais "institucional" do que a intenção. "Use filtro solar."

domingo, 23 de agosto de 2009

Ela

Tinha olhos vivos demais. Era a primeira coisa que vinha a minha cabeça ao me lembrar, daqueles olhos cheios de expressão e sentimento. Era tanta vida que era difícil suportar.
E aquele sorriso aberto? Quem podia com aquele sorriso aberto, pronto para dizer que tudo vai ficar bem?
Ela não era bonita, não precisava. Agora quando lembro dela fico feliz de que não fosse bela, se fosse seria perfeita demais.
Sua escrita era mais cheia que a minha, seus olhos carregavam sua alma, o sorriso brilhava de esperança. Ela era quem eu queria ser, e por isso, a odiava tanto quanto a amava. Agora já não passam de lembranças.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Liberdade

A manhã nasceu com um cheiro diferente, filha de uma noite normal e recheada de tédio. Não havia nenhum sinal da noite vazia naquela manhã cheia de cor e magia. O principal era mesmo o cheiro, diferente, único, daqueles que impregna e preenche todo o corpo. Era cheiro de vida que a manhã emanava.
Antes de acordar a menina já tinha percebido aquele cheiro e, antes que a luz alcançasse seus olhos ela via as cores maravilhosas que aquele dia reservava. E todo esse clima fez com que ela se sentisse diferente, mais viva, mais colorida também e, o cheiro da manhã se tornou o cheiro dela.
A luz do sol matutino era daquele amarelo aquarela que deixa tudo mais iluminado, trazia aquele calor gostoso de sentir e ela se deliciou com cada raio de sol que incidiu em sua pele.
Ela se levantou rápido para aproveitar cada gota daquele dia. Primeiro foi a varanda e olhou a gaiola de ouro que era a casa daquele pássaro multicolorido.
O pássaro continuava lindo e, cantava deliciosamente. Mas ela sentiu um peso no peito, o pássaro preso não combinava com aquela manhã. Uma dor gigantesca caiu sobre ela e uma lágrima escorreu do seu rosto.
Travou uma conversa mental com o pássaro, e soube o que precisava fazer. Os dedos esguios tocaram a porta daquela jaula, um suspiro saiu do seu peito e alcançou o ar, abriu. Na verdade, escancarou a porta. Olhou para o pássaro e o lembrou que a casa era dele, a comida sempre estaria deliciosa e a água sempre fresca, poderia dormir quando quisesse, mas que merecia a vida livre.
O pássaro deu passos desajeitados, daqueles que só quem pode voar consegue e quando alcançou a porta, voou. Primeiro para as árvores do pomar, soltou um canto tão lindo quanto o dia e dali, só sabe o vento para onde foi.
O peso que tinha se debruçado sobre o coração da menina se aliviou com cada batida de asa do pássaro raro e, ela, pode sorrir de novo. Tinha um dia maravilhoso pela frente, com cheiro de vida.
Deixou que seus pés fossem guiados pelo coração e, ao invés de ir para fora, aproveitar diretamente o dia, voltou se para dentro da casa.
Mais uma vez um peso caiu em cima dela, a casa estava toda organizada, cada vaso de flor em seu devido lugar. Olhou aqueles vasos, lindas flores e folhas verdissimas, era tão amargurante.
Pegou todos os vasos com o mesmo cuidado que sempre tomara conta daquelas flores, levou os para o jardim. Retirou flor por flor de seu vaso e, delicadamente, com o cuidado da mãe que percebe que é hora de seus filhos irem para o mundo, replantou as flores na terra espaçosa do jardim.
A tarefa tomou um bom tempo do seu dia, tinha se perdido em seus pensamentos, quando dos devaneios percebeu que o cheiro estava ainda melhor e, o dia ainda mais iluminado e colorido. Mais uma o peso foi-se embora e ela pode sorrir.
A tarde daquele dia foi tão deliciosa quanto, ela sentou-se na varanda com uma caneca de chocolate quente e, ouviu o mundo. O barulho do vento, o assovio dos pássaros.
Havia tanta liberdade, tanta cor e, o cheiro, ah, o cheiro! Pouco a pouco o peso foi voltando pro seu peito, não havia mais nada para libertar, o que dessa vez contrastava com aquele dia?
Ela não precisou pensar muito, apenas olhar para dentro de si mesmo, percebeu os sonhos que, um a um, ela aprisionou na alma, sonhos de criança que alguém sempre dizia impossível de se realizar. Percebeu também as vontades que foi podando durante os meses, os gostos que manteve em vasos, não permitindo que florescessem.
Eram tantas coisas presas dentro de si: sonhos, vontades, gostos, sorrisos... havia também medo, medos que a envergonhavam, então mantidos em um sala escura do seu peito.
Havia tantas gaiolas internas que a impediam de voar, tantos vasos que não a permitiam crescer, quantas vezes já tinha se podado? Mas qual era o problema de uma flor selvagem?
Uma a uma foi abrindo suas gaiolas, libertando seus sonhos e até seus medos. Abriu cadeados, jogou fora as correntes. Quando terminou a noite já tinha voltado e, ela não pode deixar de notar, que não era vazia, nem recheada de tédio, era uma noite linda, clara. Principalmente, era uma noite cheirosa, perfumada de liberdade.
A menina sorria. Deitou na cama macia e fechou os olhos, não era mais a mesma que naquela manhã.
Outra manhã nasceu. Havia um novo cheiro no ar.
A menina acordou mulher.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Viver da arte

Acordar e começar um novo roteiro, abrir os olhos e permitir que a poesia os ilumine mais uma vez. Levantar em uma coreografia sem ensaio, andar flutuando, sem tocar o chão, acariciando as nuvens.
A roupa vestida, um quadro. Cada olhar mais atencioso e delicado, uma fotografia.
Os trajetos diários: curtas, longas, ou videoclipes da música silenciosa que ronda sua mente, que cantarola como se fosse um clássico que acabou de nascer.
Tocar o mundo e sentir a textura, sentir o pulsar da pedra fria e, o calor do tronco da árvore. Esculturas vivas, que mesmo imóveis respiram.

Relatos imaginários ou não de uma artista frustrada, que se não pode criar tenta viver dentro da arte, tentando ser a Arte. Criando personagens que consome, que a consomem, personagens que se consomem... personagens tão irreais que se tornam um pedacinho da sua realidade inventada.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Feliz

Dever cumprido, sangue doado... e mais um monte de dever para cumprir, muito sangue ainda corre aqui para doar, para entregar. Já não o desperdiço em textos tão mórbidos, nem escorrem mais pelas minhas unhas imundas.
Aproveitando para crescer, para mudar, transformar, aproveitando dias ruins e também os bons para chegar mais perto de quem eu quero ser.

A gente se encontra por lá... onde os sonhos se realizam e as vontades se concretizam.