segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Ver o fio da vida

Olhos fixos no espelho. Para onde eles me levam? Até onde eu posso ver?
Vou forçando, concentrando a atenção no brilho dos meus olhos, desvendando os véus que cobrem essa carne oca, ultrapassando os órgãos, os tecidos, os músculos, trilhando pelo caminho vermelho que me traz vida.
Um corte, só um... um talho bem feito na face e a viagem seria mais fácil. Posso imaginar a carne se abrindo ao toque frio do metal bem afiado, se separando, descolando. Um fio começaria a escorrer e logo se tornaria uma enxurrada do líquido sólido, a pele se banharia da vida que se esvai, e esse banheiro, estupidamente branco, seria o palco perfeito para que eu finalmente visse através dessa máscara mal feita de pele.
Mas para quê? Por que eu sujaria o banheiro? Só para enxergar o que vem depois da pele? Então eu veria os ossos, as veias... nada mais além de disso.
O que eu procuro não está por baixo da pele, nem mesmo dentro dos órgãos, está enraizado dentro do peito: em um coração que pulsa, mas não é de sangue. Preenche todos os órgãos, está em cada célula, em cada palavra cuspida da garganta, e ao mesmo tempo não está em lugar nenhum. Essa força invísivel, esse delicado fio que me mantém viva