terça-feira, 27 de julho de 2010

Retornando para si

Ela entra no quarto sem pressa, já correu muito e se esqueceu de quem era, agora só quer sentir cada movimento, presta atenção na respiração e no movimento dos pés que a fazem ir de um lugar a outro.
O rosto exibe as marcas da lágrima seca que deixam um estranho brilho, a boca só consegue se lembrar do gosto mineral do sangue, a armadura pesada esconde as feridas que não conseguiu proteger.
Queria poder jogar a pesada espada no chão, mas esse desejo não é maior que o orgulho e o respeito por aquele instrumento amigo. Com um pano úmido tenta tirar todos os vestígios impregnados no metal frio, a lâmina se recusa a abandonar todo o líquido que já derramou e mantém uma coloração ocre.
Depois da limpeza, a espada é deitada no suporte em destaque na parede, é hora de seu descanso.
Em seguida são os metais e malhas que recobrem o corpo que são retirados e limpos, um a um, sem pressa, até que só reste uma túnica velha e puída que, apesar do aspecto, é retirada e lavada com o mesmo cuidado.
Submersa em uma tina de água morna e com flores boiando é a pele quem recebe o tratamento, cada centímetro de si foi banhado, do pé aos cabelos.
Uma toalha de algodão macia desliza pelo corpo e retira toda a umidade, seguida por um óleo perfumado.
Em seguida, vai até o pesado baú de madeira e, depois de tocar cada detalhe encravado, abre a tampa com certa dificuldade, dentro está tudo como ela deixou, com o mesmo desleixo de outrora.
Ela tira de lá o vestido leve e fresco e o veste, coloca também os anéis e a gargantilha. Depois guarda, dessa vez com zelo, a armadura e a túnica, fecha o baú lentamente e, com um sorriso vai até o espelho. Enquanto arruma o cabelo, sorri, finaliza com flores delicadas do campo.
Com os mesmos passos lentos e leves sai do quarto e vai ver o sol.
A luta acabou não precisa mais provar para ninguém (nem para si mesma) toda a força e coragem dentro dela, não precisa mais se esconder atrás de lutas e armaduras para fugir de ser quem é: mulher.