terça-feira, 17 de janeiro de 2012
...
...silêncio e escuridão. Solidão.
A correnteza do rio é mais forte do que os braços podem aguentar, não há salva vidas, não há onde se agarrar. Os olhos já não podem ver.
O corpo se fecha em busca de segurança. Tensiona os músculos. A água vai cobrindo a pele, o rosto. Não existe ar.
Busca vã pelo cordão que traz oxigênio. Se foi há tanto tempo, mas as lembranças emergem sem ordem, sem nexo...
Uma criança tentando respirar, tentando lembrar. O corpo reage ao que as lembranças d'alma, mas a consciência não se conecta ao que não pode suportar.
As mãos procuram irmãs, ninguém as estende. Olhos brilham no vazio, salvação? São intimidadores, amedrontam, cobram o que não sabem dar. Mãos surgem nas sombras da escuridão. Dedos apontados.
A mente engana, não sabe o que é real. De onde vem essa dor? Quem levou toda força? O corpo exige sensações para distinguir o sonho da realidade.
...silêncio...
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Rô Rezende
terça-feira, 30 de agosto de 2011
Gestando*
Volto meu foco para escuridão em mim, mergulhando nas entranhas rubras do meu próprio peito. Afundo nessa escuridão vermelha e me jogo nas sombras do que já fui.
No espelho d'alma já não me reconheço, o reflexo já não sou eu. Lembro da menina sorridente de vestido branco e da donzela cabisbaixa banhada em sangue, mas são só lembranças, já não me assombram.
Sei que tenho que ir cada vez mais fundo, encontrar a essência como Sedna ensina. E quando chegar lá, emergirei para as luzes, renascida em mim e com um serzinho precisando de mim...
*Mais sobre sobre essa gestação em Depois de Benjamin.
No espelho d'alma já não me reconheço, o reflexo já não sou eu. Lembro da menina sorridente de vestido branco e da donzela cabisbaixa banhada em sangue, mas são só lembranças, já não me assombram.
Sei que tenho que ir cada vez mais fundo, encontrar a essência como Sedna ensina. E quando chegar lá, emergirei para as luzes, renascida em mim e com um serzinho precisando de mim...
*Mais sobre sobre essa gestação em Depois de Benjamin.
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Rô Rezende
terça-feira, 22 de março de 2011
Para não esquecer
Calou-se o riso estampado em grito.
Foi a vida achegou-se a morte.
O rosto inerte, natureza morta.
Arte em pele exibindo a sorte.
Veio o vento, agridoce gosto,
passou a sombra registrando o corte.
Abriu os olhos para rubra cena,
Inebriou-se perdendo o norte.
Enojado foi-se sem ajudar:
o sangue não tirou do amigo, o porte.
Foi a vida achegou-se a morte.
O rosto inerte, natureza morta.
Arte em pele exibindo a sorte.
Veio o vento, agridoce gosto,
passou a sombra registrando o corte.
Abriu os olhos para rubra cena,
Inebriou-se perdendo o norte.
Enojado foi-se sem ajudar:
o sangue não tirou do amigo, o porte.
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Rô Rezende
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
Ver o fio da vida
Olhos fixos no espelho. Para onde eles me levam? Até onde eu posso ver?
Vou forçando, concentrando a atenção no brilho dos meus olhos, desvendando os véus que cobrem essa carne oca, ultrapassando os órgãos, os tecidos, os músculos, trilhando pelo caminho vermelho que me traz vida.
Um corte, só um... um talho bem feito na face e a viagem seria mais fácil. Posso imaginar a carne se abrindo ao toque frio do metal bem afiado, se separando, descolando. Um fio começaria a escorrer e logo se tornaria uma enxurrada do líquido sólido, a pele se banharia da vida que se esvai, e esse banheiro, estupidamente branco, seria o palco perfeito para que eu finalmente visse através dessa máscara mal feita de pele.
Mas para quê? Por que eu sujaria o banheiro? Só para enxergar o que vem depois da pele? Então eu veria os ossos, as veias... nada mais além de disso.
O que eu procuro não está por baixo da pele, nem mesmo dentro dos órgãos, está enraizado dentro do peito: em um coração que pulsa, mas não é de sangue. Preenche todos os órgãos, está em cada célula, em cada palavra cuspida da garganta, e ao mesmo tempo não está em lugar nenhum. Essa força invísivel, esse delicado fio que me mantém viva
Vou forçando, concentrando a atenção no brilho dos meus olhos, desvendando os véus que cobrem essa carne oca, ultrapassando os órgãos, os tecidos, os músculos, trilhando pelo caminho vermelho que me traz vida.
Um corte, só um... um talho bem feito na face e a viagem seria mais fácil. Posso imaginar a carne se abrindo ao toque frio do metal bem afiado, se separando, descolando. Um fio começaria a escorrer e logo se tornaria uma enxurrada do líquido sólido, a pele se banharia da vida que se esvai, e esse banheiro, estupidamente branco, seria o palco perfeito para que eu finalmente visse através dessa máscara mal feita de pele.
Mas para quê? Por que eu sujaria o banheiro? Só para enxergar o que vem depois da pele? Então eu veria os ossos, as veias... nada mais além de disso.
O que eu procuro não está por baixo da pele, nem mesmo dentro dos órgãos, está enraizado dentro do peito: em um coração que pulsa, mas não é de sangue. Preenche todos os órgãos, está em cada célula, em cada palavra cuspida da garganta, e ao mesmo tempo não está em lugar nenhum. Essa força invísivel, esse delicado fio que me mantém viva
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Rô Rezende
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
Quando era criança eu sabia das coisas.
Sabia que quando crescesse ficaria chata, daquelas que não tem coragem de correr e não toma mais banho de chuva. Cresci... e fiquei chata.
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Rô Rezende
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
Em meio a tormenta do meu coração
A tempestade que vem do meu peito varre meus [pré]conceitos, inunda meus olhos e destrói minhas bases. Hecate em tormenta, Ixchel derrubando seu jarro, Sedna me puxando pro seu reino gelado e me lembrando que há pérola de esperança no fundo.
A tempestade que derruba é a única que me dá oportunidade de reconstrução: conceitos mais firmes e menos pré-concebidos, olhar mais aguçado e observador, bases mais sólidas.
A tempestade que derruba é a única que me dá oportunidade de reconstrução: conceitos mais firmes e menos pré-concebidos, olhar mais aguçado e observador, bases mais sólidas.
Seja bem-vinda, Mãe Hécate em tormenta.
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Rô Rezende
sábado, 6 de novembro de 2010
O que meu pai não me ensinou
Meu pai não me ensinou a rezar. Também não me ensinou a fazer o que é certo só porque o deus (ou a deusa) exigia. Não me falou de um lugar que ferve pela eternidade para que eu não pecasse.
Não, ele não falou de nada disso. Ele nem mesmo me falou sobre bem e mal, bondade e maldade, certo e errado.
Ele falou de ética, de bom senso, de observar e pensar. Ele não me deu um mapa, apenas uma bússola. E qual a diferença? O mapa diz para onde ir, mostra o caminho exato, sem falhas, mas ele é finito e quando você chega, ele se torna inútil. Já a bússola não diz exatamente por onde seguir, apenas indica o norte. Ela não mostra o caminho, apenas sugere a direção e é você quem decide. E não importa para onde você vá, mesmo quando segue na direção errada, ela estará lá, indicando o norte.
Foi assim que descobri que posso trilhar meus próprios caminhos sem seguir mapas, apenas ir. E foi nesse caminho que agradeci por não aprender a rezar nem a temer, e que percebi que não há deus que seja carrasco pior do que a própria consciência.
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Rô Rezende
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
Dinah
Acordei com um aperto no peito, natural, já que ao dormir havia nele um nó. Os olhos inchados e as lágrimas secas finalizaram o quadro, pintado por dores que não são minhas. Dores antigas, quase tão antigas quanto o Sol e a Lua. História já conhecida que, sem entender bem porque, decidi relembrar.
Não recordo bem se da primeira vez a história doeu tanto, mas hoje, depois de relembrar, não consigo tirá-la da minha cabeça, nem do meu peito e sei que esse aperto durará o dia todo. E mesmo que eu saiba que é uma história fictícia, ela me parece tão real quanto a comida que me sustenta.
A história me fez pensar nos meus antepassados, nas dores deles e no que sofreram. Nos sacríficios, nas saudades, nos amores e também na maldade. E, por mais que tente, não consigo pensar nas felicidades, nos sorrisos.
Samhaim se aproxima, e por mais que não me acostume aos festivais celtas, muitas culturas honram os mortos nessa data, sob diferentes nomes. Talvez seja isso que me impele a honrar a memória dos que já foram.
Quem sabe, se eu conseguir honrar adequadamente e lidar bem com essas dores que não são minhas, quando a roda girar e o dia dos mortos voltar, eu consiga sentir também as felicidades da vida deles.
A história que me aperta o peito vem do livro A Tenda Vermelha, de Anita Diamant. A primeira parte é a história da família de Jacó, filho de Isaac, neto de Abrãao (é, todos da bíblia) contada através dos olhos de sua única filha, Dinah, que teve quatro mães. A segunda é a vida adulta de Dinah, ainda narrada por ela.
Apesar do aperto no peito, eu recomendo para quem não se importa em chorar.
Não recordo bem se da primeira vez a história doeu tanto, mas hoje, depois de relembrar, não consigo tirá-la da minha cabeça, nem do meu peito e sei que esse aperto durará o dia todo. E mesmo que eu saiba que é uma história fictícia, ela me parece tão real quanto a comida que me sustenta.
A história me fez pensar nos meus antepassados, nas dores deles e no que sofreram. Nos sacríficios, nas saudades, nos amores e também na maldade. E, por mais que tente, não consigo pensar nas felicidades, nos sorrisos.
Samhaim se aproxima, e por mais que não me acostume aos festivais celtas, muitas culturas honram os mortos nessa data, sob diferentes nomes. Talvez seja isso que me impele a honrar a memória dos que já foram.
Quem sabe, se eu conseguir honrar adequadamente e lidar bem com essas dores que não são minhas, quando a roda girar e o dia dos mortos voltar, eu consiga sentir também as felicidades da vida deles.
A história que me aperta o peito vem do livro A Tenda Vermelha, de Anita Diamant. A primeira parte é a história da família de Jacó, filho de Isaac, neto de Abrãao (é, todos da bíblia) contada através dos olhos de sua única filha, Dinah, que teve quatro mães. A segunda é a vida adulta de Dinah, ainda narrada por ela.
Apesar do aperto no peito, eu recomendo para quem não se importa em chorar.
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Rô Rezende
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
Eu tinha um nome, um nome qualquer. Era simples, simplório até. Mas era meu, e assim me chamavam até que um dia, sem nem praquê, os chamados calaram e o silêncio chegou.
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Rô Rezende
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
O sonho que virou post
Estranhamente hoje sonhei com a Fernanda Takai, um sonho sem sentido em que falava com ela pelo msn e, mais estranhamente ainda ela comentou sobre o blog. Acordei e coloquei Pato Fú para tocar e era realmente tudo que eu precisava ouvir, abrindo uma exceção postarei o vídeo e a música, só para eu não esquecer mesmo. Além dessa do vídeo também me serviram Imperfeito e Antes que seja tarde.
Espero - Pato fú
Dizem que não sirvo pra gostar de ninguém
Que não faço nada que não seja pro meu bem
Falo coisas de mau gosto
Não posso evitar
E há quem mesmo vire o rosto
Ao me ver chegar
É difícil respirar sem você
Não,
Ela só quer
Que eu goste,
Algum lugar
De ser má,
E o que ela não
Mas sorrir pra que?
Vá se lembrar
Espero, espero
Já vai longe o tempo
Mas te espero
Um dia pode ser
Talvez eu volte a ver
Todas as cores que fugiram junto com você
Eu só digo a quem me pede
Que eu tenha um bom coração
Que me dê uma razão
É difícil respirar sem você
Não,
Ela só quer
Que eu goste,
Algum lugar
De ser má,
E o que ela não
Mas sorrir pra que?
Vá se lembrar
Espero, espero
Já vai longe o tempo
Espero - Pato fú
Dizem que não sirvo pra gostar de ninguém
Que não faço nada que não seja pro meu bem
Falo coisas de mau gosto
Não posso evitar
E há quem mesmo vire o rosto
Ao me ver chegar
É difícil respirar sem você
Não,
Ela só quer
Que eu goste,
Algum lugar
De ser má,
E o que ela não
Mas sorrir pra que?
Vá se lembrar
Espero, espero
Já vai longe o tempo
Mas te espero
Um dia pode ser
Talvez eu volte a ver
Todas as cores que fugiram junto com você
Eu só digo a quem me pede
Que eu tenha um bom coração
Que me dê uma razão
É difícil respirar sem você
Não,
Ela só quer
Que eu goste,
Algum lugar
De ser má,
E o que ela não
Mas sorrir pra que?
Vá se lembrar
Espero, espero
Já vai longe o tempo
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Rô Rezende
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