sábado, 6 de novembro de 2010

O que meu pai não me ensinou

Meu pai não me ensinou a rezar. Também não me ensinou a fazer o que é certo só porque o deus (ou a deusa) exigia. Não me falou de um lugar que ferve pela eternidade para que eu não pecasse.
Não, ele não falou de nada disso. Ele nem mesmo me falou sobre bem e mal, bondade e maldade, certo e errado.
Ele falou de ética, de bom senso, de observar e pensar. Ele não me deu um mapa, apenas uma bússola. E qual a diferença? O mapa diz para onde ir, mostra o caminho exato, sem falhas, mas ele é finito e quando você chega, ele se torna inútil. Já a bússola não diz exatamente por onde seguir, apenas indica o norte. Ela não mostra o caminho, apenas sugere a direção e é você quem decide. E não importa para onde você vá, mesmo quando segue na direção errada, ela estará lá, indicando o norte.
Foi assim que descobri que posso trilhar meus próprios caminhos sem seguir mapas, apenas ir. E foi nesse caminho que agradeci por não aprender a rezar nem a temer, e que percebi que não há deus que seja carrasco pior do que a própria consciência.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Dinah

Acordei com um aperto no peito, natural, já que ao dormir havia nele um nó. Os olhos inchados e as lágrimas secas finalizaram o quadro, pintado por dores que não são minhas. Dores antigas, quase tão antigas quanto o Sol e a Lua. História já conhecida que, sem entender bem porque, decidi relembrar.
Não recordo bem se da primeira vez a história doeu tanto, mas hoje, depois de relembrar, não consigo tirá-la da minha cabeça, nem do meu peito e sei que esse aperto durará o dia todo. E mesmo que eu saiba que é uma história fictícia, ela me parece tão real quanto a comida que me sustenta.
A história me fez pensar nos meus antepassados, nas dores deles e no que sofreram. Nos sacríficios, nas saudades, nos amores e também na maldade. E, por mais que tente, não consigo pensar nas felicidades, nos sorrisos.
Samhaim se aproxima, e por mais que não me acostume aos festivais celtas, muitas culturas honram os mortos nessa data, sob diferentes nomes. Talvez seja isso que me impele a honrar a memória dos que já foram.
Quem sabe, se eu conseguir honrar adequadamente e lidar bem com essas dores que não são minhas, quando a roda girar e o dia dos mortos voltar, eu consiga sentir também as felicidades da vida deles.

A história que me aperta o peito vem do livro A Tenda Vermelha, de Anita Diamant. A primeira parte é a história da família de Jacó, filho de Isaac, neto de Abrãao (é, todos da bíblia) contada através dos olhos de sua única filha, Dinah, que teve quatro mães. A segunda é a vida adulta de Dinah, ainda narrada por ela.
Apesar do aperto no peito, eu recomendo para quem não se importa em chorar.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Eu tinha um nome, um nome qualquer. Era simples, simplório até. Mas era meu, e assim me chamavam até que um dia, sem nem praquê, os chamados calaram e o silêncio chegou.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

O sonho que virou post

Estranhamente hoje sonhei com a Fernanda Takai, um sonho sem sentido em que falava com ela pelo msn e, mais estranhamente ainda ela comentou sobre o blog. Acordei e coloquei Pato Fú para tocar e era realmente tudo que eu precisava ouvir, abrindo uma exceção postarei o vídeo e a música, só para eu não esquecer mesmo. Além dessa do vídeo também me serviram Imperfeito e Antes que seja tarde.

Espero - Pato fú



Dizem que não sirvo pra gostar de ninguém
Que não faço nada que não seja pro meu bem

Falo coisas de mau gosto
Não posso evitar
E há quem mesmo vire o rosto
Ao me ver chegar

É difícil respirar sem você
Não,
Ela só quer
Que eu goste,
Algum lugar
De ser má,
E o que ela não
Mas sorrir pra que?
Vá se lembrar

Espero, espero
Já vai longe o tempo
Mas te espero
Um dia pode ser
Talvez eu volte a ver
Todas as cores que fugiram junto com você

Eu só digo a quem me pede
Que eu tenha um bom coração
Que me dê uma razão

É difícil respirar sem você
Não,
Ela só quer
Que eu goste,
Algum lugar
De ser má,
E o que ela não
Mas sorrir pra que?
Vá se lembrar

Espero, espero
Já vai longe o tempo

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Era uma vez um e-mail...*

Tem horas que me pego pensando em você, com vontade de tá aconchegada no seu colo, sentindo seu cheiro e seu toque.
Queria seu beijo e, isso me dá vontade de chorar. É estranho, porque meu coração ainda muda a batida quando lembro de você, ele acelera de um jeito que parece que o ponteiro do relógio fica mais lento.
Achava que isso sumia com o tempo, se bem que tem tempo que some, mas hoje tá aqui, ultimamente tem ficado bastante aqui.
Não é aquele fogo dos primeiros dias, daquelas chamas que machucam a mão e quebra a porcelana, sabe? É mais uma brasa aconchegante, que aquece, preenche, mas não fere.
O mais estranho é que acho que nunca escrevi nada tão sincero para você, é isso que chama amor? Às vezes tenho medo desse amor-felicidade em brasa, que parece ser tão estável, parece que alguém vai tirar você de mim a qualquer momento, e meu coração aperta de pensar nisso. Tento não pensar.
No mais, a gente só não pode deixar a brasa apagar. E eu só queria conseguir ver a sua, sabe? Me deixa olhar dentro do teu peito para ver como tá? Vai que precisa de mais lenha...me conta?


*que virou post.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Significa

- Mas posso falar sem olhar para você?
- Por que? Te incomoda falar olhando nos olhos?
- Só quando eu sou o assunto...

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Hino à Hécate | 13 de agosto

Eu sou pagã e hoje, 13 de agosto, é dia de Hécate, a deusa que eu honro. E se para maioria sexta-feira treze é de azar, para mim é sagrada. Mesmo porque meu aniversário também é dia 13, mas daqui um mês.
Em homenagem a Hécate, fiz esse texto, que ainda pretendo melhorar.


Treze são as luas e treze são os meses*,
Treze é Seu dia, Rainha das Bruxas e Senhora das Sombras,
Que hoje anda entre nós e recebe o que é Seu por direito.

Venha, Hécate! Illumine esse dia com Sua tocha sagrada,
dance conosco nesse círculo abençoado, ouça nossos cânticos,
receba nossas oferendas e aceite nossas homenagens.

Oh, Mãe Sagrada! Que sempre haja filhos que Lhe honrem,
Mulheres e homens que distribuam Seu poder de cura,
Homens e mulheres que carreguem Suas graças,
Que seu poder nunca se acabe, que sua voz nunca se cale,
Que seus olhos vejam pelos meus, e meus toques sejam seus,
Que o seu conhecimento continue transpassando os milênios
e suas benções sejam derramadas por todo o mundo.

A Senhora que é três e é todas, que é sombra e luz,
Que carrega o fardo da morte e do nascimento,
Que conduz as almas entre os mundos,

Receba essa homenagem tecida em palavras
e venha me ensinar a Lhe honrar.

Heilsgru



*Em algumas culturas existem treze meses.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Corre-corre

Hoje eu quis andar sem pressa de chegar, sem olhar pro relógio e ter de medir o passo. Mas era só querer e tem dia que o querer não passa disso, hoje era esse dia.
Queria fazer tudo sem pressa, mas a vida não deixou não. Ela me empurrou e disse que eu tinha de andar logo, lembrou que o final do ano tá chegando e que se eu quiser parar de correr ia ter que fazer tudo bem rápido.
Agora eu tô correndo e só passei, rapidinho, para contar que a vida não quer me deixar demorar por aqui não. Beijotchau

terça-feira, 27 de julho de 2010

Retornando para si

Ela entra no quarto sem pressa, já correu muito e se esqueceu de quem era, agora só quer sentir cada movimento, presta atenção na respiração e no movimento dos pés que a fazem ir de um lugar a outro.
O rosto exibe as marcas da lágrima seca que deixam um estranho brilho, a boca só consegue se lembrar do gosto mineral do sangue, a armadura pesada esconde as feridas que não conseguiu proteger.
Queria poder jogar a pesada espada no chão, mas esse desejo não é maior que o orgulho e o respeito por aquele instrumento amigo. Com um pano úmido tenta tirar todos os vestígios impregnados no metal frio, a lâmina se recusa a abandonar todo o líquido que já derramou e mantém uma coloração ocre.
Depois da limpeza, a espada é deitada no suporte em destaque na parede, é hora de seu descanso.
Em seguida são os metais e malhas que recobrem o corpo que são retirados e limpos, um a um, sem pressa, até que só reste uma túnica velha e puída que, apesar do aspecto, é retirada e lavada com o mesmo cuidado.
Submersa em uma tina de água morna e com flores boiando é a pele quem recebe o tratamento, cada centímetro de si foi banhado, do pé aos cabelos.
Uma toalha de algodão macia desliza pelo corpo e retira toda a umidade, seguida por um óleo perfumado.
Em seguida, vai até o pesado baú de madeira e, depois de tocar cada detalhe encravado, abre a tampa com certa dificuldade, dentro está tudo como ela deixou, com o mesmo desleixo de outrora.
Ela tira de lá o vestido leve e fresco e o veste, coloca também os anéis e a gargantilha. Depois guarda, dessa vez com zelo, a armadura e a túnica, fecha o baú lentamente e, com um sorriso vai até o espelho. Enquanto arruma o cabelo, sorri, finaliza com flores delicadas do campo.
Com os mesmos passos lentos e leves sai do quarto e vai ver o sol.
A luta acabou não precisa mais provar para ninguém (nem para si mesma) toda a força e coragem dentro dela, não precisa mais se esconder atrás de lutas e armaduras para fugir de ser quem é: mulher.


segunda-feira, 14 de junho de 2010

Sangue, Rosas e Vinho Tinto

Uma taça e um gole. Uma rosa e um suspiro. Um corte e... a morte.

O líquido balança pelas bordas do delicado vidro da taça, balançando por dentre os dedos esguios da moça. A outra mão leva a flor vermelha as narinas, que sugam seu odor para dentro e devolvem um suspiro descrente.

O silêncio invade a penumbra da sala tão arrebatador quanto uma multidão gritando palavrões.
Raios da Lua escapam por entre a cortina entreaberta junto com a brisa gélida da noite de inverno.

As mãos se inverteram, a taça pousou sobre os lábios e cuspiu o líquido agridoce para dentro da criatura. O vinho queimou a boca como se madeira em brasa, era só sabor...

Os olhos semi-cerrados se apertaram com força. A garganta prendeu o suspiro de dor. Todos os dedos se fecharam com força, e as mãos se apertaram contra o peito e o face.

Cacos de vidro. Espinhos. Sangue.
Vinho. Pétalas. Sangue.
Vermelho. Vermelho. Sangue.

Lágrimas e alívio.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Reflexos

E essas pessoas pré-fabricadas que andam pelas calçadas e procuram uma coisa nova para (re)dizer. Que andam olhando do pé a cabeça toda gente que passa ao seu lado para (re)criar o figurino marcado e poder desfilar.
Que conversam com um sugando o que dizem para na conversa com outro (re)emitirem cada palavra.
Essa pessoas que se construíram com migalhas de outras, que não se preocuparam em criar seus próprios tijolos. Só reflexos zanzando pela cidade em busca de frases prontas, de opiniões mastigadas, mentiras consumadas para (re)contar.

São só reflexos... sou só um reflexo.

Meu coração já se cansou de falsidade
(de Santa Chuva, Maria Rita - ouvindo agora)

terça-feira, 11 de maio de 2010

Das linhas e imagens dela

Li algumas linhas.
Eram daquelas que a gente se perde.

E perdida em mim nas linhas dela, aquela sensação me tomou e passou a desespero.

Não suportei as linhas, mudei para os cliques. Na imagem é mais difícil se perder.

Mas me perdi de novo. Até nos meus conceitos.

Perdida no meu desespero das linhas e imagens dela que nem sei quem é. Faço a única coisa que sei para suportar: imito suas linhas.

As linhas. As imagens.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Dindinha

E aquela música que toca arrepia, aquela voz que estremece o peito e faz suspirar a alma.
Dessas melodias que nos fazem querer viajar para longe sem sair do lugar, que inspiram e nos enchem de vontade de fazer coisas novas.



"A mentira é uma princesa
cuja beleza não gasta.
E a verdade vive presa
no espelho da madrasta."

Dindinha de Zeca Baleiro,
ainda melhor na voz de Ceumar.

sexta-feira, 12 de março de 2010

A aventura de escolha do aprendiz*

Li isso e isso.

Lembrei dos livros que não tenho lido. Dos já lidos que quero reler.Dos não lidos que quero ler. E dos não lidos que nem mesmo sei que existem.
Também dos textos que não escrevo mais. Da gestação dos contos e poesias que interrompi no meio e não permiti que nascessem da minha cabeça (da alma?) e voassem para o papel. São abortos que só hoje entendo.
Me afoguei na rotina, enquanto a maré me levava para onde eu achava que tinha de ir. Não lutei nenhuma vez, não tentei subir e tomar um fôlego novo.
Até mesmo agora, esse texto carregado de culpas só está nascendo porque a rotina permitiu, sobrou um tempo. E a maré continua me levando...
E não sei se luto para tomar um fôlego antes de descobrir para que ilha eu quero nadar, ou se descubro a ilha e depois tomo o fôlego.

*Título surrupiado emprestado de Rubens Alves e Raquel Costa.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Ensaindo e enrolando

O coração acelera, a boca seca, sinto a queimação ir subindo pro rosto e sei, estou corada. Mais que isso, estou completamente vermelha, roxa.
Isso porque eu nem fui ainda. É, ainda não fui falar.
Estou aqui, escrevendo isso e tentando esgotar minha ansiedade em linhas para quando eu chegar e começar a falar de fato não reste nem um pouquinho de cor no rosto. Para que minha voz saia sem medo, e não fique presa atrás da língua.
Continuo aqui. É, ainda não fui. O tremor pelo corpo continua, então é melhor esperar mais um pouco e gastá-lo nessas linhas.
Tento aprender que o máximo que pode acontecer é ouvir um "não". É, eu vou lá.

Críticas e o que eu queria

Sabe, eu queria ser mais crítica. Com tudo. Porque para mim ser mais crítica é sinônimo de ser mais entendida das coisas.
Queria ser assim com a comida, daquelas que engole uma garfada e já fala da combinação dos temperos e avisa que a cozinheira exagerou em algum tempero exótico que só quem liga para essas coisas sabe o nome.
Queria me acostumar em misturar doce com salgado, porque isso sim é sinal de paladar refinado. Mas para mim ou é doce ou é salgado, para quê misturar? É, eu não sou crítica de comida, não.

Queria apreciar vinho, sabe? Pegar aquela taça de vidro fino - mas tão fino que se espirrar quebra - balança-lá, vendo o redemoinho vermelho se formando, cheirar elegantemente com cara de êxtase. E, só então, bebericar e dar o veredicto: "as uvas foram mal colhidas". Ou "a safra desse ano foi a melhor". Ou ainda, "esse vinho não combina muito com massa, mas com peixe ia ser divino". Saber os nomes das uvas também ia ser legal, sabe?

Queria saber o nome dos diretores, dos atores. Os melhores compositores, entender dos estilos musicais.
Arte é uma coisa que eu queria muito entender. Ah, queria mesmo. As épocas, os estilos. Queria entender dos pintores, falar de arte como quem conversa do jogo da semana passada: "Picasso, ah, Picasso. Que traços marcantes. Cada pincelada era um gol." Se bem que eu também não entendo de futebol, mas essa é uma outra história.

É, eu queria entender das coisas. Discutir um filme como quem defende uma tese de doutorado.
Mas eu não sei. Eu não sou crítica, nem tenho esses gostos refinados, não mesmo.
Quando assisto um filme não me preocupo se o diretor errou no enquadramento de qualquer cena (É o diretor que decide isso?). Eu simplesmente assisto o filme.
Meu leque de críticas não inclui dados técnicos, nem temperos exóticos, não conheço das safras, nem imagino qual é a forma correta de se colher uma uva. Eu não saio do "gosto ou não gosto", mas o que define o meu gostar é o meu sentir.
Eu gosto quando um quadro me traz um arrepio na espinha. Quando uma garfada preenche minha boca de sabor e eu prendo o ar para degustar. Ou quando eu vejo um filme e me sinto nele, chorando ou rindo como se fosse comigo.
E vinho, ah, eu nem gosto de vinho (Só de rosas e sangue). Mas mesmo assim eu queria ser mais crítica.

PS: Mesmo não sendo crítica, meus sentimentos me disseram que ver fotografias, ler textos (e toda forma de arte que não entendo, mas amo) ouvindo Adriana Calcanhoto me tira o fôlego, quase que literalmente.

terça-feira, 2 de março de 2010

Chegou a hora

Já abri os olhos e soube que tudo que eu tinha medo de encarar era realmente tudo aquilo que eu era. Tudo que eu nasci para ser.
Hoje, volto a abrir os olhos, e continuo sabendo disso. Mas o medo de encarar continua aqui e, não adianta eu achar que não, eu tenho medo.
Medo do que dizem, medo do que pensam, medo de estar errada, medo de errar.
E não adianta o quanto eu diga que sou só uma curiosa, ou só uma estudante, eu sei que sou mais que isso. Não dá para renegar: eu sou uma bruxa.
Com todo o peso da palavra, com todo o lado negro que eu entendo por isso.
Não adianta mais fugir para trás dos livros, da teoria, é hora de me despir dos medos, das vergonhas e me assumir.
Hora de cuspir o máximo da hipocrisia que trago no peito e que me sussurra: "Será que é tudo verdade?".
Chega de desconfiar do que eu sei, de simplesmente dizer que acredito, é hora de simplesmente viver, de fazer que a crença teórica que carrego no peito se torne real. De acreditar que com um pensamento eu posso fazer o vento assoviar.
É hora de ser quem eu nasci para ser.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Paixões diárias

Tiro um livro da estante e sinto a textura da capa, o cheiro das folhas, o barulho das páginas virando. Meus olhos correm pelas páginas, procuram um trecho ou um capítulo para se apaixonar. Leio cada personagem em busca de um que faça meu coração vibrar.
Busco essa paixão na música, fecho os olhos e ouço cada nota, do jeito de quem não conhece a escala. Meus ouvidos tentam separar os instrumentos, sem sucesso. Quero melodias, estrofes ou um refrão que façam meu coração dançar.
Ando pela cidade em busca de casas, construções e jardins que provoquem meus olhos e me façam sentir. Me deliciam com as curvas, retas, cores e texturas.Quero me apaixonar pela cidade, ou por partes dela.
Respiro fundo para sentir as fragâncias do dia, vou procurando aquelas que me façam sorrir, que iluminem meu dia. Seguro a maçã e sugo o aroma doce da fruta. Busco uma fragância para me apaixonar.
Mastigo a comida devagar, procurando um sabor que se transforme em êxtase, que arrepie cada milimitro de mim. Que eu ame.
Vejo filmes lendo cada personagem, absorvendo cada fala, sentindo cada cena. Me entrego ao filme para que possa encontrar uma paixão.
Toco tecidos, paredes, papéis. Vejo cores, formas, histórias. Ouço melodias, a brisa, o silêncio. Sinto sabores, aromas,
Sigo buscando uma paixão em cada canto, com uma necessidade de gostar das coisas, como se amar a cidade fosse meu combustível para andar por ela. E a procura pela comida que me apaixone aumentasse meu apetite. Talvez seja assim, ou só uma desculpa para me apaixonar por coisas inanimadas.
Um alguém que faça meu coração vibrar já existe, mas às vezes me apaixono por algum livro, outras por um filme. Ora é música, ora um sabor. E sigo, procurando paixões nas coisas cotidianas para que a vontade de fazê-las aumente, ou quem sabe, exista.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Ciclo

Olhos fechados e braços rente ao corpo.
Sugou com força o ar para dentro dos pulmões, liberando o bem devagar enquanto apertava os dedos de encontro a mão. Apertou tão forte que as unhas quase cortaram a pele.
Abriu os olhos, sabendo o que veria logo a frente. Uma lágrima cortou a face enquanto os lábios se contorciam em um sorriso.
Olhou aquele monstro metálico e virtual a sua frente. Sugou o ar mais uma vez, dessa vez, soltando rapidamente, relaxou as mãos e foi-se.
Subiu a escadaria sem medo, sem pensar muito.
Deixou para trás a placa de boas vindas que gravava o nome da amiga de outrora: Montanha Russa de Sentimentos. Aquela que tirava seu chão, sugava seu oxigênio e lhe ensinava a força o que precisava aprender.
Ria enquanto prendia o cinto, achava engraçado como algo tão infantil a jogava de encontro ao crescer.
O tilintar do metal se misturava ao seu riso, eram as engrenagens enferrujadas começando a se movimentar. Começava mais uma viagem...

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Pseudos Sorrisos

Não mexeu um músculo sequer, apenas prendeu a respiração e sorriu, imóvel. Foi singelo, tímido, mas ainda assim um sorriso, não daqueles que iluminam e preenchem a face, mas sim um sútil brilho nos olhos.
Com força soltou a respiração e relaxou os braços, mas manteve os olhos brilhantes de sorriso e, sem perceber, arcou os lábios. Sem mostrar os dentes, os lábios acompanharam os olhos. O sorriso aumentou, sem ainda ser um grande sorriso.
Preencheu os pulmões de ar mais uma vez e, dessa vez, lentamente soltou o ar.
2010 ia ser um ano bom. Um ano difícil, mas bom.