quarta-feira, 10 de março de 2010

Críticas e o que eu queria

Sabe, eu queria ser mais crítica. Com tudo. Porque para mim ser mais crítica é sinônimo de ser mais entendida das coisas.
Queria ser assim com a comida, daquelas que engole uma garfada e já fala da combinação dos temperos e avisa que a cozinheira exagerou em algum tempero exótico que só quem liga para essas coisas sabe o nome.
Queria me acostumar em misturar doce com salgado, porque isso sim é sinal de paladar refinado. Mas para mim ou é doce ou é salgado, para quê misturar? É, eu não sou crítica de comida, não.

Queria apreciar vinho, sabe? Pegar aquela taça de vidro fino - mas tão fino que se espirrar quebra - balança-lá, vendo o redemoinho vermelho se formando, cheirar elegantemente com cara de êxtase. E, só então, bebericar e dar o veredicto: "as uvas foram mal colhidas". Ou "a safra desse ano foi a melhor". Ou ainda, "esse vinho não combina muito com massa, mas com peixe ia ser divino". Saber os nomes das uvas também ia ser legal, sabe?

Queria saber o nome dos diretores, dos atores. Os melhores compositores, entender dos estilos musicais.
Arte é uma coisa que eu queria muito entender. Ah, queria mesmo. As épocas, os estilos. Queria entender dos pintores, falar de arte como quem conversa do jogo da semana passada: "Picasso, ah, Picasso. Que traços marcantes. Cada pincelada era um gol." Se bem que eu também não entendo de futebol, mas essa é uma outra história.

É, eu queria entender das coisas. Discutir um filme como quem defende uma tese de doutorado.
Mas eu não sei. Eu não sou crítica, nem tenho esses gostos refinados, não mesmo.
Quando assisto um filme não me preocupo se o diretor errou no enquadramento de qualquer cena (É o diretor que decide isso?). Eu simplesmente assisto o filme.
Meu leque de críticas não inclui dados técnicos, nem temperos exóticos, não conheço das safras, nem imagino qual é a forma correta de se colher uma uva. Eu não saio do "gosto ou não gosto", mas o que define o meu gostar é o meu sentir.
Eu gosto quando um quadro me traz um arrepio na espinha. Quando uma garfada preenche minha boca de sabor e eu prendo o ar para degustar. Ou quando eu vejo um filme e me sinto nele, chorando ou rindo como se fosse comigo.
E vinho, ah, eu nem gosto de vinho (Só de rosas e sangue). Mas mesmo assim eu queria ser mais crítica.

PS: Mesmo não sendo crítica, meus sentimentos me disseram que ver fotografias, ler textos (e toda forma de arte que não entendo, mas amo) ouvindo Adriana Calcanhoto me tira o fôlego, quase que literalmente.

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