segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Se foi...



Quinze dias foram suficientes para que conquistasse a todos, até aqueles que não suportavam seus pêlos.Seus dentes afiados, que ainda rasgavam sua pele e insistiam em tentar a rasgar a nossa, não intimidaram carinhos e brincadeiras. Os olhos azuis que ora olhavam assustados, ora zombateiros, mas sempre curiosos costumavam descobrir o que estavamos fazendo.
Correria pela casa, saltos no ar, tombos bobos e batidas, e sempre uma sombra no pé de quem andava pela casa.
Foram só quinze dias e foi o que bastou para que enchesse a casa de alegria, com seu ronrorar na hora de dormir e resmungos na hora de comer.
Sempre que eu a olhava pensava se o rajado cinza ia ficar muito mais forte quando crescesse, tinha também os quadradinhos na barriga, e o risco que saia do olho e parecia proposital e não só uma marca da natureza.
Mas ela se foi e nunca vou saber como ela ficaria, e é difícil não pensar nos "E se" "Eu devia ter" "Eu podia". Não foram só as marcas nos braços que essa pestinha deixou...

Que Hécate te leve em paz para o outro lado, meu anjinho que quatro patas.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Poesia em tecido

Houve um tempo em que meus olhos brilhavam só de ler uma linha qualquer bem escrita, e um arrepio frio percorria minha pele quando essa linha era minha.
Era um tempo em que escrever era mais que prazer, era necessidade. Minha mente viajava em busca de um novo tema, que nem sempre alcançava. Mas ela não parava até sujar uma folha, mesmo que com palavras desconexas.
Hoje essa necessidade não é tão forte, mas existe. E junto dela uma outra vem se instalando, essa necessidade não deixa minhas mãos ficarem quietas, me joga um peso no peito e um vazio no estômago.
Nasci com essa sede de criar, e o que antes era letra, tornou-se linha. Essa linha vem me cobrando atenção, e ela não quer só um rabisco virtual. Ela quer trabalho duro, quer meus dedos concentrados em uma dança de agulhas, acompanhadas do créc-créc da tesoura pelo tecido.
Preciso sentir o cheiro da criação: tecido, papel, linha, cola. Ouvir os dedos roçando em texturas. Encher os olhos de cores e estampas. Preciso criar.

Enquanto não consigo, assisto:
Mundo das Matildes
Malagueta Craft

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Ego

Pegou no colo com cuidado de mãe, ajeitou os braços com delicadeza para deixá-lo mais confortável. Eles tinham-no machucado tanto, feridas abertas sangravam em volta dele.
Uma lágrima escorreu do rosto dela, passou a costa das mãos e secou. Não iria deixar assim!
Ninou aquela criaturinha tão frágil com cantigas decoradas, a letra falava de tudo que os dois, juntos, eram capazes de fazer. Coisas boas, algumas nem tanto, que já tinham feito. Todas as vitórias foram lembradas, uma a uma.
Aos poucos ele foi melhorando, os ferimentos eram profundos, mas ela foi curando um a um. Justificativa atrás de justificativa, ela mostrava os motivos para ele não se entristecer.
Prometeu que iria corrigir tudo aquilo e, que ninguém que o machucasse, ficaria impune.
Iriam mostrar, juntos, que nada do que aqueles estranhos diziam era verdade.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Cicatriz

Os olhos percorreram o espelho enquanto os dedos tateavam a pele e acariciavam as marcas do corpo.
Tinha uma ligação estranha com cada uma daquelas imperfeições. Imaginava sua pele como um quadro branco, sem tinta, cada marca era uma pincelada, um capítulo de sua vida.
Quando tocava uma cicatriz lembrava exatamente de como ela surgiu, podia até sentir a mesma dor: a pele sendo cortada ou esfolada. Não era uma dor ruim, e sim uma sensação de estar viva, de ser única, de ter uma história.
A sua preferida era um corte feito quando era criança. Era tão moleca quanto os irmãos mais velhos e, naquela tarde de primavera, subiu na árvore para comer alguma fruta da época.
Estava a uns 3 metros do chão quando o irmão do meio passou correndo pela porta da cozinha gritando seu nome. Assustou-se e perdeu o equilibrio, escorregou e começou a cair, conseguiu se segurar em um galho na metade do trajeto
Um galho quebrado havia rasgado a pele e uma parte dele continuava fincado em sua carne. Havia sangue, muito sangue.
Ela olho para baixo e seus olhos encontraram os olhos assustados do irmão. Nunca havia visto ele tão nervoso.
Quando desceu da árvore, segundos depois e sem mais estragos, foi que percebeu a gravidade da situação. Não era tanto o machucado, que acabou ficando em segundo plano, mas o nervosismo do irmão.
O garoto estava pálido e tremia muito, seus olhos não saiam do dela, a respiração era pesada e rápida.
Ela percebeu quando os olhos dele correram pro seu tronco e pousavam sobre o corte, foi quando percebeu que um pedaço do graveto ainda estava lá, abaixou-se sem cerimônia e puxou a madeira. A dor foi quase insuportável, não esperava que doesse tanto.
O irmão continuava imóvel e ela percebeu uma lágrima que fazia o olho dele brilhar.
Eles se encaravam por alguns minutos, até que a mãe gritou da cozinha chamando os dois. Quando percebeu o machucado xingou com aquela preocupação típica e tratou do corte.
A garota demorou alguns anos para perceber que o irmão já não a deixava mais subir em árvores, era sempre ele que ia buscar frutas no alto. Ele nunca mais levantou a voz para ela, nem durante discussões, e a protegerá.
Os dedos acaraciavam a cicatriz mais uma vez, a cicatriz que marcava uma nova relação com o irmão.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Só suspeitas...

Duas palavras ecoavam em sua mente há algumas horas, só duas, sem conexões, só substantivos. Na escuridão do quarto tentava definir o quanto aquele amontoado de letras significava, a sensação que elas causavam, que sentimentos evocavam.
No meio dessas tentativas fechava os olhos e procurava o sono. Ele vinha, forte, pesado, ardia seus olhos. Não o suficiente para impedir as tentativas, elas voltavam e o sono se escondia, dando espaço a lágrimas que não queriam cair.
Um nó ia se apertando no peito, mais e mais, havia um amontoado de sentimentos que, juntos, se anulavam e não sentia nada. Vazio.
Queria poder repetir aquelas duas palavras amaldiçoadas para alguém, ouvi-las se esvaindo com o som de sua voz, perceber melhor o poder delas e decidir o quanto elas podiam machucar, descobrir o quanto a primeira anulava a outra, se tinha o direito de chorar. Não podia, falar elas se agarravam em sua garganta e impediam que a fala saísse.
As palavras continuaram ecoando, elas ecoam ainda: "suspeita câncer".

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Dualidade: Luz e Sombra

Luz

Banho de cachoeira, água fria e cristalina, perfume de flores e relva. Visto meu vestido de primavera, cor de algodão. Prendo meus cabelos em trança, enfeitada com flores do campo.
Tenho em mim todos os sorrisos do mundo, a paz me envolve e deixa meu coração leve.
A pena branca empunhada com delicadeza, deslizam contos de amor e saudade.


Sombra

Água quente na tina, perfume de dama da noite. Visto meu manto mais negro, cabelos soltos ao vento. No ar ressoam as doze badalas, no peito ecoa o silêncio. Um sussurro estrondoso recita-me a poesia, é Aquela que muitos temem que me guia.
Empunho a pena negra de corvo, dela escorre sangue e lágrimas, escapam contos de horror e magia.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Lembranças imaginárias

Um emaranhado de imagens vai se formando, quadros surgem e somem em segundos. Alguns quadros se tornam vivos, se movem, alguns tem sons. São vozes que nunca ouvi e músicas que não conheço, frutos de instrumentos antigos. Sorrisos vazios, lágrimas que não caíram, gargalhadas ecoam, feições nada familiares, olhos que atormentam. Alguns zombam, outros confortam, todos parecem terem algo a dizer.
Como veio, vai, se perdem em algum ponto da consciência, não há como reproduzir, não há como lembrar, não há como entender. Minha mente tenta prender alguma, concentrar-se e procurar a resposta, mas há peças demais.
Restam vestígios de histórias que não são minhas, que me pergunto se pertencem a alguém. Histórias que se confundem com meus sonhos e não sei se são imaginação ou... lembranças.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

O encontro

Havia paz naquele sorriso calculado, uma paz incômoda, quase que pertubadora. Não era hora de um sorriso daqueles, se ao menos fosse um sorriso cruel.
Os olhos sorriam junto com os lábios, e brilhavam com tanta vida que era difícil acreditar que encaravam a morte de tão perto.
E a morte chegava cada vez mais perto, seu cheiro impregnava o ar, o vento uivava ao desviar, temente, da foice. Os passos se aproximavam e o sangue escorria sujando o asfalto.
Levou alguns instantes até que a morte chegasse e todo sangue escorresse. Foi quando os olhos brilhantes alcançavam os olhos frios e negros da morte.
O sorriso pacifico foi se transformando em êxtase, agora o prazer podia ser lido na face daquele, que, a pouco, havia tirado a vida de alguém, só pelo prazer de encarar a morte.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

O Retorno

Sorriu sorrisos falsos quando o sangue voltou a escorrer manchando a página. As lágrimas voltaram a se esconder de medo da maldição. Abriu os lábios, saiu um suspiro, filho bastardo do grito que se calou. Durante um tempo acreditou veementemente que a morte tinha fugido de sua caneta, aproveitou aquela fase longe do rubro líquido.

Mas tinha voltado.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Reflexos da dualidade

Às vezes ela volta, posso vê-la em reflexos durante o dia, em flashes na minha mente. Vem acompanhada de suas facas manchadas de sangue, os olhos marcados por lágrimas que não cairam.Ela tem aquele riso irônico que posso encontrar em espelhos, e sinto de longe sua alma pesada. Todas as culpas de uma assassina. Em sua pele todas as maldições cravejadas pelos séculos passados.Ao seu lado a garotinha de vestido branco brinca com o vento, sente a brisa e sorri, sorriso de criança. Os lábios se curvam inocentemente, não reconhecem a maldição, a pureza da idade a livra das culpas do passado e futuras.A vida que emana de uma contrasta com a paixão pela morte da outra. Contrastes, limites, instintos. Ser tantas e nenhuma.
Passado?!

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

365 dias

Quase. Mais uns dias e já posso somar mais uma ano inteiro quando me perguntarem a idade, já posso encher a boca e falar que tenho 20 anos. Em inglês já posso dizer que não vou mais ter teen na idade. Twenty now!
Mas de fato o que muda? Quando eu acordar os vestígios da adolescência estarão na cama e eu me levanterei mulher?
A mudança, que começou faz tempo, nesses últimos dias tem gritado dentro de mim e, particularmente, hoje (talvez pelo ócio) quer fugir da minha garganta e vestir meu corpo, pentear meu cabelo e tudo o mais.
Foi ela que me arrastou até aqui e está me obrigando a escrever esse post (drama! rs).

No mais, recomendações:

Música: http://www.myspace.com/brunacaram

Blog (de moda): www.conversinhafashion.com.br

E para quem também precisa mudar e quer um empurrãozinho: http://amandamedeiros.com/.

domingo, 30 de agosto de 2009

Sangue, culpa e água

Afundo na água, sinto um peso me puxando para baixo, acho que é do corpo a principio, segundos depois percebo que o que me pesa tanto é o coração, cansado, machucado, obscuro.
Há também algo que me puxa para cima, talvez seja a leveza de uma alma que, contra todo o resto, precisa e quer continuar.
A alma aprendeu a estancar seu sangue, a cuidar das cicatrizes. O coração ainda sangra, marcas pelo corpo, cicatrizes, hematomas. Por mais que as marcas da vida sejam belas, contem histórias perdidas na noite, tento disfarçar as marcas como posso.
Mas como disfarçar essas cicatrizes, vindas de cortes tão profundos, de feridas tão doloridas?
O conflito entre meu coração e minha alma, um me puxando para baixo, outra para cima, me deixa ainda mais cansada. Tira meu fôlego literalmente, minha pele formiga.
Meu estômago, vazio, reclama. Minha boca se recusa a cooperar, minha garganta se fecha e, o vômito me diz que é melhor nem tentar.
O ar que se infiltra em meu pulmão não traz a mesma vida, vem carregado do peso da culpa, cheio de acusações, dedos apontados. O juiz puxa as gargalhadas do júri, não tenho advogado, não tenho testemunhas... no banco de réu assisto a cena imaginária sem falar nada. A porta se abre, a primeira testemunha da acusação. Não, não pode ser. Até mesmo você! Ela se senta no banco de testemunhas. Uma lágrima escorre do meu rosto, mas o rosto dela é impassível, duro, seus olhos me queimam e eu percebo, que não importa o veredicto, minha pena já começou. O juiz faz a primeira pergunta “Culpada?”. Ela me olha com rancor e ódio e, quando abre a boca para responder a voz é tão familiar e tão diferente, “Culpada!”.
A voz que saiu daquela boca é a minha voz, a mulher que me acusa sou eu mesma. O mesmo rosto, as mesmas roupas, a mesma pele pálida...
Afasto a cena do julgamento, me concentro no meu corpo que flutua na água, sem saber se vai para baixo ou para cima, sem saber o que fazer mais uma vez.
Minhas forças me deixam pouco a pouco, a cada minuto a respiração é mais complicada, sinto o coração batendo tão forte que a água parece vibrar a cada batida.


*Texto meio antigo que achei perdido nas minhas pastas. Alguns trechos são frutos de uma ligação...err... eufórica durante a madrugada dele.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Um dia

Na próxima manhã abra os olhos e encare o espelho. Permita-se enxergar além da pele que encobre a essência. Penetre no seu próprio âmago e, marque um encontro com a única pessoa que você tem que conviver para todo o sempre.
Enxergue-se sem meias verdades, sem vergonhas, sem hipocrisia. Veja toda a escuridão e imundice que infestam sua alma, todo ódio e inveja que sente. Permita-se isso sem juízos, sem desculpas ou justificativas. Não torça o nariz para quem você, olhe, perceba, aceite e só então, decida o que quer mudar.
Nesse mesmo dia saia de casa, desligue o computador, a tv, feche todos os livros. Desligue o celular, o mp3. Esqueça tudo e todos e encare seus olhos no fundo de um riacho ou lago. Mergulhe em você mesmo, só não se afogue. Beba da sua alma e permita-se sentir com vontade tudo que carrega no coração.
Olhe para toda luz que você carrega, todo o amor e admiração. Também não se julgue nisso, só se observe. Principalmente não julgue o outro por não corresponder, ou não reconhecer. Apenas perceba todo os sentimentos maravilhosos que carrega em seu peito. Toda bondade e paz que você encontra dentro de si.
Quando a noite cair volte para casa, sente-se na varanda e olhe para o céu. Encare as estrelas e toda imensidão do Universo, converse com a Lua e sorria para o mundo. Observe como você é pequeno diante de tudo e, entenda que você nunca vai curar tudo e todos. Perceba também como nada é igual, infinitos corpos únicos, cada um com seu valor, cada um com sua parcela para ajudar nessa cura gigantesca. Não fique parado, a melhor maneira de ajudar é sendo melhor que ontem.
Lembre-se que a vida é maravilhosa e cheia de coisas e seres únicos e, que é uma só. Pelo menos nesse corpo. Viva. Sinta com intensidade tudo que passar pelo seu coração: amor, ódio, paixão... mas não se demore muito em sentimento nenhum, pois o ódio corrói e o amor vicia.
Sorria, chore... compartilhe tudo isso.
Quando deitar para dormir feche os olhos, sorrindo e, durma absorvendo o que aprendeu, olhando para dentro e aproveitando aquele encontro que marcou durante a manhã.

PS: Ficou bem mais "institucional" do que a intenção. "Use filtro solar."

domingo, 23 de agosto de 2009

Ela

Tinha olhos vivos demais. Era a primeira coisa que vinha a minha cabeça ao me lembrar, daqueles olhos cheios de expressão e sentimento. Era tanta vida que era difícil suportar.
E aquele sorriso aberto? Quem podia com aquele sorriso aberto, pronto para dizer que tudo vai ficar bem?
Ela não era bonita, não precisava. Agora quando lembro dela fico feliz de que não fosse bela, se fosse seria perfeita demais.
Sua escrita era mais cheia que a minha, seus olhos carregavam sua alma, o sorriso brilhava de esperança. Ela era quem eu queria ser, e por isso, a odiava tanto quanto a amava. Agora já não passam de lembranças.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Liberdade

A manhã nasceu com um cheiro diferente, filha de uma noite normal e recheada de tédio. Não havia nenhum sinal da noite vazia naquela manhã cheia de cor e magia. O principal era mesmo o cheiro, diferente, único, daqueles que impregna e preenche todo o corpo. Era cheiro de vida que a manhã emanava.
Antes de acordar a menina já tinha percebido aquele cheiro e, antes que a luz alcançasse seus olhos ela via as cores maravilhosas que aquele dia reservava. E todo esse clima fez com que ela se sentisse diferente, mais viva, mais colorida também e, o cheiro da manhã se tornou o cheiro dela.
A luz do sol matutino era daquele amarelo aquarela que deixa tudo mais iluminado, trazia aquele calor gostoso de sentir e ela se deliciou com cada raio de sol que incidiu em sua pele.
Ela se levantou rápido para aproveitar cada gota daquele dia. Primeiro foi a varanda e olhou a gaiola de ouro que era a casa daquele pássaro multicolorido.
O pássaro continuava lindo e, cantava deliciosamente. Mas ela sentiu um peso no peito, o pássaro preso não combinava com aquela manhã. Uma dor gigantesca caiu sobre ela e uma lágrima escorreu do seu rosto.
Travou uma conversa mental com o pássaro, e soube o que precisava fazer. Os dedos esguios tocaram a porta daquela jaula, um suspiro saiu do seu peito e alcançou o ar, abriu. Na verdade, escancarou a porta. Olhou para o pássaro e o lembrou que a casa era dele, a comida sempre estaria deliciosa e a água sempre fresca, poderia dormir quando quisesse, mas que merecia a vida livre.
O pássaro deu passos desajeitados, daqueles que só quem pode voar consegue e quando alcançou a porta, voou. Primeiro para as árvores do pomar, soltou um canto tão lindo quanto o dia e dali, só sabe o vento para onde foi.
O peso que tinha se debruçado sobre o coração da menina se aliviou com cada batida de asa do pássaro raro e, ela, pode sorrir de novo. Tinha um dia maravilhoso pela frente, com cheiro de vida.
Deixou que seus pés fossem guiados pelo coração e, ao invés de ir para fora, aproveitar diretamente o dia, voltou se para dentro da casa.
Mais uma vez um peso caiu em cima dela, a casa estava toda organizada, cada vaso de flor em seu devido lugar. Olhou aqueles vasos, lindas flores e folhas verdissimas, era tão amargurante.
Pegou todos os vasos com o mesmo cuidado que sempre tomara conta daquelas flores, levou os para o jardim. Retirou flor por flor de seu vaso e, delicadamente, com o cuidado da mãe que percebe que é hora de seus filhos irem para o mundo, replantou as flores na terra espaçosa do jardim.
A tarefa tomou um bom tempo do seu dia, tinha se perdido em seus pensamentos, quando dos devaneios percebeu que o cheiro estava ainda melhor e, o dia ainda mais iluminado e colorido. Mais uma o peso foi-se embora e ela pode sorrir.
A tarde daquele dia foi tão deliciosa quanto, ela sentou-se na varanda com uma caneca de chocolate quente e, ouviu o mundo. O barulho do vento, o assovio dos pássaros.
Havia tanta liberdade, tanta cor e, o cheiro, ah, o cheiro! Pouco a pouco o peso foi voltando pro seu peito, não havia mais nada para libertar, o que dessa vez contrastava com aquele dia?
Ela não precisou pensar muito, apenas olhar para dentro de si mesmo, percebeu os sonhos que, um a um, ela aprisionou na alma, sonhos de criança que alguém sempre dizia impossível de se realizar. Percebeu também as vontades que foi podando durante os meses, os gostos que manteve em vasos, não permitindo que florescessem.
Eram tantas coisas presas dentro de si: sonhos, vontades, gostos, sorrisos... havia também medo, medos que a envergonhavam, então mantidos em um sala escura do seu peito.
Havia tantas gaiolas internas que a impediam de voar, tantos vasos que não a permitiam crescer, quantas vezes já tinha se podado? Mas qual era o problema de uma flor selvagem?
Uma a uma foi abrindo suas gaiolas, libertando seus sonhos e até seus medos. Abriu cadeados, jogou fora as correntes. Quando terminou a noite já tinha voltado e, ela não pode deixar de notar, que não era vazia, nem recheada de tédio, era uma noite linda, clara. Principalmente, era uma noite cheirosa, perfumada de liberdade.
A menina sorria. Deitou na cama macia e fechou os olhos, não era mais a mesma que naquela manhã.
Outra manhã nasceu. Havia um novo cheiro no ar.
A menina acordou mulher.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Viver da arte

Acordar e começar um novo roteiro, abrir os olhos e permitir que a poesia os ilumine mais uma vez. Levantar em uma coreografia sem ensaio, andar flutuando, sem tocar o chão, acariciando as nuvens.
A roupa vestida, um quadro. Cada olhar mais atencioso e delicado, uma fotografia.
Os trajetos diários: curtas, longas, ou videoclipes da música silenciosa que ronda sua mente, que cantarola como se fosse um clássico que acabou de nascer.
Tocar o mundo e sentir a textura, sentir o pulsar da pedra fria e, o calor do tronco da árvore. Esculturas vivas, que mesmo imóveis respiram.

Relatos imaginários ou não de uma artista frustrada, que se não pode criar tenta viver dentro da arte, tentando ser a Arte. Criando personagens que consome, que a consomem, personagens que se consomem... personagens tão irreais que se tornam um pedacinho da sua realidade inventada.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Feliz

Dever cumprido, sangue doado... e mais um monte de dever para cumprir, muito sangue ainda corre aqui para doar, para entregar. Já não o desperdiço em textos tão mórbidos, nem escorrem mais pelas minhas unhas imundas.
Aproveitando para crescer, para mudar, transformar, aproveitando dias ruins e também os bons para chegar mais perto de quem eu quero ser.

A gente se encontra por lá... onde os sonhos se realizam e as vontades se concretizam.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Terror

Desistir, insistir... decidir. Do pouco que eu sabia só restou a rima pobre, verbo com verbo, sangue com sangue, dúvida com dúvida. Dormi cheias de certezas, decisão tomada, peito leve.

Acordei flutuando e as horas seguiram, até me deparar com a certeza ao lado, que não é minha, mas grita, me bate. Ri das minhas dúvidas, da minha ignorância imatura, da falta de sonhos. Ela fortalece minhas incertezes, fortalece meu não. Me enfraquece, me aterroriza...

Decidir mesmo com a certeza que intimida, decisão tomada, plano feito... agora não estará mais apenas nessas mãos precoces.

domingo, 26 de julho de 2009

...faxina...

Precisando limpar novamente as teias d'alma. Me reconhecer (de novo), lembrar de quem sou, do quero, do que preciso...
Queria saber se escrever ajuda no processo ou se é só uma ilusão.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Fazer valer

Quero escrever um livro e pintar um quadro. Ver filmes e ouvir meus cd’s. Reler cartas e fotografar pessoas. Beijar, abraçar e tocar.
Abraçar essa dor que me toma, acariciar essa ansiedade que consome. Beber da sede de gritar que me rouba noites de sono, engolir o ócio que recheia minhas tardes entediantes, sugar para dentro de mim todas as respostas que minha alma insiste em buscar.
Quero versos despidos de vergonhas medíocres, sem porquês, nem ‘paraquês’, me banhar da arte da escrita.
Acima de todo querer, quero me embalsamar de palavras, me enroscar na teia de narrativas ricas, no emaranhado de entrelinhas cheias de conceitos inalcançáveis.
Eu só quero viver uma vida que valha a pena.

Quando não consigo mais formar minha teia...me volto para teias alheias!

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Última exibição

É no fim que ele começa, quando a cortina se fecha que o espetáculo dele toma forma. Recheado de beijos e carinhos, de flores e perfumes, atenção e aplausos.
Lá no fundo do palco, quase na coxia, que os segredos finalmente são sussurrados, que os sorrisos florescem entre lágrimas, que o calor envolve os beijos, os toques, os corpos. Só depois do final da peça que seus olhos se enchem de desejo, de um desejo desesperado, descontrolado, na verdade tudo calculado.
O protagonista se envolve em magia, se recheia de fantasia e a busca, ela, atriz principal. Ele revela promessas, cria juras, recita sonhos. Ela, frágil, se entrega a toda ilusão pós-espetáculo, se encanta, se permite envolver...se entrega.
Chega a hora de mais uma exibição, bilheteria esgotada, cadeiras cheias. As cortinas se abrem.A protagonista entra em cena, segue o roteiro, diz suas falas, canta sua canção, dá a deixa ao ator principal e... espera...ele não vem. Estático, atrás da cortinas, não dá um passo sequer em direção ao palco. Esqueceu suas falas? Tem medo do público? O teatro se cala, espera, ela se cala, espera, ele se cala, não se move.Decepcionado o público segue, quer de volta o ingresso. Decepcionada ela fica, quer de volta o coração. Devolve, moço, o coração dela. Caída no chão, ela olha o teatro, as cadeiras se esvaziando, cada rosto que se levanta a olha em mistura de pena e ódio. Mais uma vez não houve flores, nem mesmo aplausos, nem mesmo vaias. A platéia se foi silenciosa. Quando o último espectador deixa a cadeira uma lágrima escorre nos olhos da atriz, e depois outro, e logo uma enxurrada toma seu rosto. As cadeiras vazias se transformam em cacos, pedaços de um coração vagabundo, perdido na luz dos holofotes.Ela olha para ele, ele olha para ela. Em grito engasgado ela diz, DEIXARA O TEATRO.
Ele recomeça seu ato, corre ao encontro dela, busca seus beijos, diz que na PRÓXIMA EXIBIÇÃO SERÁ TUDO DIFERENTE, ELE FARÁ O QUE DEVE. TERÁ FLORES, CHOCOLATES, APLAUSOS.
Dessa vez ela não o olha, foge de seus abraços, corre de seus toques, não olha para os olhos castanhos que incedeiam do mesmo desejo.
Dessa vez o espetáculo não voltará a se repetir... as cortinas se fecharam, e ela não estará para a próxima exibição.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Luz, sombra e a expressão


(dica de imagem da Lizzie. Brigada, moça! =])



Meus olhos transitam entre a luz e a sombra, passeiam por entre a grama sempre aparada, correm atrás do lagarto que fugiu com a passada apressada. Olhos tão arredios a luz, a buscam. Tão acostumados a se perder enquanto a mente busca conteúdo, aproveitam para se achar e buscar a forma, pensando de quais ângulos a imagem ficaria melhor, que luz mereceria um clique. E a mente, traça essas linhas, que quando realmente forem riscadas mudaram de rumo e se perderão, pouco importa, a expressão é combustível e ao mesmo tempo é escape.
Os pés sabem por onde ir, não faz tanto tempo que traçam essas mesmas pegadas, mas seguem como se já conhecem as calçadas nobres de belas flores. A pressa, já corriqueira, se torna companheira e, já não atrapalha tanto assim. Já pode ser ligada a busca incessante pelo forma.
Nesse jogo de pega-pega entre luz e sombra meus olhos se deliciam com as formas e se enriquecem com esse conteúdo. Quer unir tudo e jogar em um liquidificador, beber dessa fonte, sugar cada gota, sedentos de inspiração.
Foi nessa brincadeira que percebi, que não importa quantas palavras o bom-entendedor precise, nem o valor de uma imagem, o que conta nessa hora não é a necessidade de quem ouve, mas sim a de quem fala. É a necessidade de expressar que me obriga a buscar formas e meios de gritar o que se passa aqui, sem me preocupar se quem me lê entende, de quem vê, enxerga, de quem me ouve percebe esse turbilhão dentro de mim, que voltiemeia se acalma, mas que cada vez que volta traz mais força...
Continuo meu caminho, assistindo a brincadeira da luz e da sombra, transitando entre a forma e o conteúdo, buscando o meio que satisfará a minha necessidade de expressão.

(já que meus cliques são sempre imaginários, mais tarde busco uma imagem para ilustrar e expressar mais esse grito)

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Neblina


Voltimeia venho, apenas para aliviar essa vontade que se acumula, dia após dia, noite após noite, lágrima após lágrima.
Venho para me mostrar, para lembrar, que ainda sei fazer isso, que ainda consigo formar frases e criar essa rede imaginária com cada letra.
Nem sempre o coração tem algo a dizer, mas ele sempre precisa dizer, é quando escrevo sem ter muito o que escrever, como agora. Escrevo pela necessidade, quase física, de escrever, de exprimir em palavras, mesmo que seja o nada.
O nada. O vazio branco em que me perco, a sombra negra em que afundo. Atormenta meus dias, às vezes mais que a própria dor, aliás, me parece que o nada se posta frente aos meus olhos para que eles não vejam a dor.
Minha busca hoje, como sempre parece ser, é por letras. A diferença é que hoje é pela forma, não pelo conteúdo. E é minha falta de conhecimento na forma faz com que, mais uma vez, eu me encontre com o vazio. E como superar o vazio?
Não é um obstáculo qualquer. É o nada. Não há uma montanha a subir, não há estacas cortantes que me façam sangrar, não há um precipício, não há absolutamente nada. É como uma neblina densa que cobre meus olhos e, não posso sequer ver o que me impede.
Como vencer um obstáculo que não vejo?

sábado, 11 de abril de 2009

Fragmentos



Hoje acordei procurando poemas, palavras escritas, cantadas ou não. Afiado como uma navalha, donde escorresse sangue e suor, onde a Morte voltasse para me visitar.
Procurei um poema que não falasse de amor, que fosse apenas um espelho de minha alma, que trouxesse de volta esse arrepio, suspiro daquela Senhora, que me sussura no ouvido essas palavras mal ditas.
Primeiro procurei fora de mim, nas legiões perdidas, nos zepelins fugidos. Não encontrei. E me vi obrigada a fazê-lo, começou com versos, rimas frustradas, e agora segue, em prosa ao som de Pétalas*, acompanhado de chocolate vagabundo e de uma ainda busca pelo zepelin (IV), já que a legião (V) realmente evaporou-se.
A procura das palavras aos poucos vai se esvaindo, como o sangue que corre pelo corte aberto, como a vida que foge da ferida fatal, como uma alma que se faz em frases. E com a calma do olho do furacão, escrevo, para aliviar esse corte que nunca cicatriza.
Corte que ainda não sei a origem, que vem de antes da consciência, sabe se lá de que vida, que nome eu tinha, que vestes me cobriam, que amores me atormentavam, que deuses me protegiam, que amigos me fortaleciam. A Noite era minha avó, a Lua minha mãe, as estrelas, irmãs. Era um tempo de fogueiras, e eu era só uma criança.
Apenas fragmentos de uma memória que corre pelas veias, ou de um fio de criatividade que se mantem.


*Alceu Valença - Pétalas

sábado, 7 de março de 2009

Apenas um conto (ou não)

Não sei a autoria da imagem, mas os olhos me cativaram, tão irreais e cheios de vida!

Roupas sujas espalhadas pelo quarto, esperando para serem lavadas. Roupas limpas esperando serem passadas, dobradas, guardadas. Um corpo jogado sobre uma poltrona vermelha, frente a uma parede de vidro que refletia a lua branca e redonda.
Um copo de uma bebida em uma mão que pendia ao lado da poltrona, não havia sequer tocado os lábios. O rosto da mulher sobre a poltrona era indiferente a tudo, seus olhos, vazios, fitavam o nada, mesmo assim ela via o reflexo da gestação lunar pelo canto dos olhos, observava tudo ao redor sem retirar o olhar do vazio.
Em sua mente rodavam pensamentos perdidos, procurava desenhar o limite tênue entre a loucura e a sanidade, entre o amor e o ódio, entre o sexo e o amor. E que diferença isso tudo fazia? Nenhuma, mas esse era um detalhe que não importava.
Tentava descobrir quantas vezes ultrapassava esses limites, sem nem mesmo perceber. Quantas vezes se jogou na loucura doentia do ódio contra si mesmo, da certeza de que a vida era maravilhosa, mas ela não tinha nascido para viver. Não podia contar nos dedos, não podia nem mesmo se lembrar de todas e, mesmo assim, sobreviveu. Podia dizer para si mesmo dizendo como era forte e guerreira, sobreviver a insanidade que a jogava em buracos negros emocionais.
Mentira. Não era guerreira, tão pouco forte, se estava viva era única e exclusivamente pela falta de coragem em não largar tudo. E mais uma vez, que diferença fazia? Seu corpo indicava que estava viva, pedia comida, ar, água, carinho, amor, beijo. E sua alma o que indicava? No exato momento, só o vazio que os olhos falsamente fitavam.
Feridas imaginárias sob a pele, sangue psíquico escorrendo sobre a alma, lágrimas que já não se importavam mais em rolar e, todo o resto, eram só palavras cuspida em um papel.

domingo, 25 de janeiro de 2009

FAIL

Primeiro post de 2009, é impossível não falar um pouco de 2008 e dos planos para 2009, embora não quero que esse seja o objetivo desse post, mas pelo jeito será.

2008 foi um ano de mudanças, como tem sido os últimos anos na verdade, cresci mais um pouco, mais um ano de faculdade, de reestruturação familiar, o ano em que consegui o primeiro passo concreto no caminho profissional e, no 'amoroso', obstáculos, buracos, dificuldades...
Vendo o saldo final, foi um ano bom, que com certeza ficará para história.

Já 2009 se mostra um ano de mais mudanças, principalmente em mim mesma, parece ser um ano de reforma pessoal. Reforma essa que se iniciou no final do ano passado e persiste, mudança que não necessariamente é escolha minha, ela se quer fazer e pelo que vejo, se eu me opor, só me machucarei.
Um ano em que não consigo terminar um conto, em que as várias idéias de histórias que rondam minha cabeça e parecem tão concretas, prontas para sujar o papel, não passam de fantasmas quando me ponho a extraí-las.
Que mal consigo matar a necessidade de criar que sempre me invade e, me frustra.
Tomara que seja só o início, e que só o afobamento de criar esteja criando essas barreiras, que os próximos post, contos ou só textos, não sejam tão poluídos e desconexos quanto esse.

Respiro fundo, fechos os olhos, sinto a vida que o ar me traz e encaro de frente a tela branca, nada. Tudo parece ruim, qualquer frase é insuficiente, por isso tanta demora para postar novamente. E não, não é falta de inspiração, não é falta de ideia (é sem acento agora, né?), parece que o pouco jeito que tinha para as letras se dissipou...

Rogo para que seja só uma fase...