terça-feira, 27 de outubro de 2009

Cicatriz

Os olhos percorreram o espelho enquanto os dedos tateavam a pele e acariciavam as marcas do corpo.
Tinha uma ligação estranha com cada uma daquelas imperfeições. Imaginava sua pele como um quadro branco, sem tinta, cada marca era uma pincelada, um capítulo de sua vida.
Quando tocava uma cicatriz lembrava exatamente de como ela surgiu, podia até sentir a mesma dor: a pele sendo cortada ou esfolada. Não era uma dor ruim, e sim uma sensação de estar viva, de ser única, de ter uma história.
A sua preferida era um corte feito quando era criança. Era tão moleca quanto os irmãos mais velhos e, naquela tarde de primavera, subiu na árvore para comer alguma fruta da época.
Estava a uns 3 metros do chão quando o irmão do meio passou correndo pela porta da cozinha gritando seu nome. Assustou-se e perdeu o equilibrio, escorregou e começou a cair, conseguiu se segurar em um galho na metade do trajeto
Um galho quebrado havia rasgado a pele e uma parte dele continuava fincado em sua carne. Havia sangue, muito sangue.
Ela olho para baixo e seus olhos encontraram os olhos assustados do irmão. Nunca havia visto ele tão nervoso.
Quando desceu da árvore, segundos depois e sem mais estragos, foi que percebeu a gravidade da situação. Não era tanto o machucado, que acabou ficando em segundo plano, mas o nervosismo do irmão.
O garoto estava pálido e tremia muito, seus olhos não saiam do dela, a respiração era pesada e rápida.
Ela percebeu quando os olhos dele correram pro seu tronco e pousavam sobre o corte, foi quando percebeu que um pedaço do graveto ainda estava lá, abaixou-se sem cerimônia e puxou a madeira. A dor foi quase insuportável, não esperava que doesse tanto.
O irmão continuava imóvel e ela percebeu uma lágrima que fazia o olho dele brilhar.
Eles se encaravam por alguns minutos, até que a mãe gritou da cozinha chamando os dois. Quando percebeu o machucado xingou com aquela preocupação típica e tratou do corte.
A garota demorou alguns anos para perceber que o irmão já não a deixava mais subir em árvores, era sempre ele que ia buscar frutas no alto. Ele nunca mais levantou a voz para ela, nem durante discussões, e a protegerá.
Os dedos acaraciavam a cicatriz mais uma vez, a cicatriz que marcava uma nova relação com o irmão.

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