terça-feira, 30 de agosto de 2011

Gestando*

Volto meu foco para escuridão em mim, mergulhando nas entranhas rubras do meu próprio peito. Afundo nessa escuridão vermelha e me jogo nas sombras do que já fui.
No espelho d'alma já não me reconheço, o reflexo já não sou eu. Lembro da menina sorridente de vestido branco e da donzela cabisbaixa banhada em sangue, mas são só lembranças, já não me assombram.
Sei que tenho que ir cada vez mais fundo, encontrar a essência como Sedna ensina. E quando chegar lá, emergirei para as luzes, renascida em mim e com um serzinho precisando de mim...


*Mais sobre sobre essa gestação em Depois de Benjamin.

terça-feira, 22 de março de 2011

Para não esquecer

Calou-se o riso estampado em grito.
Foi a vida achegou-se a morte.

O rosto inerte, natureza morta.
Arte em pele exibindo a sorte.

Veio o vento, agridoce gosto,
passou a sombra registrando o corte.

Abriu os olhos para rubra cena,
Inebriou-se perdendo o norte.

Enojado foi-se sem ajudar:
o sangue não tirou do amigo, o porte.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Ver o fio da vida

Olhos fixos no espelho. Para onde eles me levam? Até onde eu posso ver?
Vou forçando, concentrando a atenção no brilho dos meus olhos, desvendando os véus que cobrem essa carne oca, ultrapassando os órgãos, os tecidos, os músculos, trilhando pelo caminho vermelho que me traz vida.
Um corte, só um... um talho bem feito na face e a viagem seria mais fácil. Posso imaginar a carne se abrindo ao toque frio do metal bem afiado, se separando, descolando. Um fio começaria a escorrer e logo se tornaria uma enxurrada do líquido sólido, a pele se banharia da vida que se esvai, e esse banheiro, estupidamente branco, seria o palco perfeito para que eu finalmente visse através dessa máscara mal feita de pele.
Mas para quê? Por que eu sujaria o banheiro? Só para enxergar o que vem depois da pele? Então eu veria os ossos, as veias... nada mais além de disso.
O que eu procuro não está por baixo da pele, nem mesmo dentro dos órgãos, está enraizado dentro do peito: em um coração que pulsa, mas não é de sangue. Preenche todos os órgãos, está em cada célula, em cada palavra cuspida da garganta, e ao mesmo tempo não está em lugar nenhum. Essa força invísivel, esse delicado fio que me mantém viva

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Quando era criança eu sabia das coisas.
Sabia que quando crescesse ficaria chata, daquelas que não tem coragem de correr e não toma mais banho de chuva. Cresci... e fiquei chata.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Em meio a tormenta do meu coração

A tempestade que vem do meu peito varre meus [pré]conceitos, inunda meus olhos e destrói minhas bases. Hecate em tormenta, Ixchel derrubando seu jarro, Sedna me puxando pro seu reino gelado e me lembrando que há pérola de esperança no fundo.
A tempestade que derruba é a única que me dá oportunidade de reconstrução: conceitos mais firmes e menos pré-concebidos, olhar mais aguçado e observador, bases mais sólidas.
Seja bem-vinda, Mãe Hécate em tormenta.