quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Liberdade

A manhã nasceu com um cheiro diferente, filha de uma noite normal e recheada de tédio. Não havia nenhum sinal da noite vazia naquela manhã cheia de cor e magia. O principal era mesmo o cheiro, diferente, único, daqueles que impregna e preenche todo o corpo. Era cheiro de vida que a manhã emanava.
Antes de acordar a menina já tinha percebido aquele cheiro e, antes que a luz alcançasse seus olhos ela via as cores maravilhosas que aquele dia reservava. E todo esse clima fez com que ela se sentisse diferente, mais viva, mais colorida também e, o cheiro da manhã se tornou o cheiro dela.
A luz do sol matutino era daquele amarelo aquarela que deixa tudo mais iluminado, trazia aquele calor gostoso de sentir e ela se deliciou com cada raio de sol que incidiu em sua pele.
Ela se levantou rápido para aproveitar cada gota daquele dia. Primeiro foi a varanda e olhou a gaiola de ouro que era a casa daquele pássaro multicolorido.
O pássaro continuava lindo e, cantava deliciosamente. Mas ela sentiu um peso no peito, o pássaro preso não combinava com aquela manhã. Uma dor gigantesca caiu sobre ela e uma lágrima escorreu do seu rosto.
Travou uma conversa mental com o pássaro, e soube o que precisava fazer. Os dedos esguios tocaram a porta daquela jaula, um suspiro saiu do seu peito e alcançou o ar, abriu. Na verdade, escancarou a porta. Olhou para o pássaro e o lembrou que a casa era dele, a comida sempre estaria deliciosa e a água sempre fresca, poderia dormir quando quisesse, mas que merecia a vida livre.
O pássaro deu passos desajeitados, daqueles que só quem pode voar consegue e quando alcançou a porta, voou. Primeiro para as árvores do pomar, soltou um canto tão lindo quanto o dia e dali, só sabe o vento para onde foi.
O peso que tinha se debruçado sobre o coração da menina se aliviou com cada batida de asa do pássaro raro e, ela, pode sorrir de novo. Tinha um dia maravilhoso pela frente, com cheiro de vida.
Deixou que seus pés fossem guiados pelo coração e, ao invés de ir para fora, aproveitar diretamente o dia, voltou se para dentro da casa.
Mais uma vez um peso caiu em cima dela, a casa estava toda organizada, cada vaso de flor em seu devido lugar. Olhou aqueles vasos, lindas flores e folhas verdissimas, era tão amargurante.
Pegou todos os vasos com o mesmo cuidado que sempre tomara conta daquelas flores, levou os para o jardim. Retirou flor por flor de seu vaso e, delicadamente, com o cuidado da mãe que percebe que é hora de seus filhos irem para o mundo, replantou as flores na terra espaçosa do jardim.
A tarefa tomou um bom tempo do seu dia, tinha se perdido em seus pensamentos, quando dos devaneios percebeu que o cheiro estava ainda melhor e, o dia ainda mais iluminado e colorido. Mais uma o peso foi-se embora e ela pode sorrir.
A tarde daquele dia foi tão deliciosa quanto, ela sentou-se na varanda com uma caneca de chocolate quente e, ouviu o mundo. O barulho do vento, o assovio dos pássaros.
Havia tanta liberdade, tanta cor e, o cheiro, ah, o cheiro! Pouco a pouco o peso foi voltando pro seu peito, não havia mais nada para libertar, o que dessa vez contrastava com aquele dia?
Ela não precisou pensar muito, apenas olhar para dentro de si mesmo, percebeu os sonhos que, um a um, ela aprisionou na alma, sonhos de criança que alguém sempre dizia impossível de se realizar. Percebeu também as vontades que foi podando durante os meses, os gostos que manteve em vasos, não permitindo que florescessem.
Eram tantas coisas presas dentro de si: sonhos, vontades, gostos, sorrisos... havia também medo, medos que a envergonhavam, então mantidos em um sala escura do seu peito.
Havia tantas gaiolas internas que a impediam de voar, tantos vasos que não a permitiam crescer, quantas vezes já tinha se podado? Mas qual era o problema de uma flor selvagem?
Uma a uma foi abrindo suas gaiolas, libertando seus sonhos e até seus medos. Abriu cadeados, jogou fora as correntes. Quando terminou a noite já tinha voltado e, ela não pode deixar de notar, que não era vazia, nem recheada de tédio, era uma noite linda, clara. Principalmente, era uma noite cheirosa, perfumada de liberdade.
A menina sorria. Deitou na cama macia e fechou os olhos, não era mais a mesma que naquela manhã.
Outra manhã nasceu. Havia um novo cheiro no ar.
A menina acordou mulher.

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