[...é o templo...] Adentro o templo devagar, passadas curtas, receosas. A escuridão toma conta do recinto, mas aos poucos meus olhos se acostumam e encontram fachos de luz que entram pelas rachaduras das paredes descuidadas. A poeira vai se acumulando pelos cantos, tomando conta das superfícies. Teias de aranha se espalham pelo teto, deslizam pelas paredes, alcançam o chão e não é difícil avistar suas hábeis tecelãs caminhando tranquilas. O ar é pesado, úmido e quente. O musgo encobre a pintura que nem mesmo foi completada. Ervas daninhas encontram espaço entre os tijolos e telhas. Escadas que não levam a lugar nenhum, labirintos suicidas. Portas que não abrem. Salas que não abrigam nada... Impossível não se infestar pela combinação grotesca da fauna e flora indesejada daquela construção mal planejada. [...em construção até o último suspiro...]
Ela mergulhou com Sedna, foi fundo, mas no ponto errado. Confundiu dor com ódio e se afundou em veneno. Quis proteger o coração partido e se revestiu de uma armadura embebida em raiva e decepção. Só não percebeu as lâminas do lado de dentro. Elas aumentavam o corte, sangravam a carne, amplificavam qualquer golpe externo e tudo ficava mais fundo, mais dolorido. Era orgulho, era medo. Muito medo. A armadura também tampava os olhos, e ela não via bem. Não via a chance escapando, não via o amor sendo destruído. Não via... Ela tenta tirar a armadura, mas ela fincou na pele, as lâminas são ganchos que fisgam a carne. É preciso tirar devagar, com cuidado. É preciso emergir, voltar a superfície. Jogar a armadura é reconhecer o amor, mesmo no coração partido. É esquecer o orgulho. É poder nadar livremente, é recuperar o amor.
Vem, me dá a mão, me arrasta para longe do céu cinza, do ar sujo, da confusão... Vamos para dentro, para perto, pro centro de lá. Vem comigo para onde a terra cheira vida, e o mato que pinta a paisagem é salpicado de flores, pássaros e felicidade. Vem, vambora. Lá onde o vento corta a pele e a fogueira aquece a alma com café fumegante para tomar. Onde a vida é mais simples e perfumada, sem marca, sem rótulo, sem prazo de validade. Não, lá não chega luz, mas os olhos se alumeiam com as estrelas do lugar. A comunicação por lá é toda complicada, é difícil de escutar, só assim para eu ouvir meu coração. Foge comigo prum lugar em que estejamos juntos realmente, sem meias verdades, maquiagem, sem hora para chegar. Lá onde a água corre livre, molha o ar, enche os ouvidos e é boa de tomar. Os animais são vizinhança, são amigos, são visitas, são jantar. Vem comigo passear. Me leva daqui, daqui dessa confusão que cala meus pensamentos, atordoa meus sentidos e engana a intuiçã...
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bjinhus..